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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Que inveja do Lupicínio!

Certas cenas urbanas se impõem ao olhar dos mais distraídos passantes. Nesta manhã, entre a compra na farmácia e a corrida ao banco para cobrir o saldo negativo, com o horário apertado, vi a figura.

Um cachorro pretinho, peludinho, raboabanando, cabriolava na calçada, indeciso entre o poste, o canteiro, e minúsculos insetos que só ele podia ver. De quando em quando um vem cá feminino o fazia virar o pescoço, imóvel, para logo retomar seu recreio.

Alguns passos adiante cruzo com uma mulher muito séria, olhar atento no cãozinho que se distanciara um pouco de sua proteção, no exato momento em que ela o chama com firme suavidade:

- Lupicínio, você pode vir aqui por favor!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os Miseráveis, Primeira Parte (Fantine)


Em 1815, era Bispo de Digne o Sr. Charles-François-Bienvenu Myriel, um velho com mais ou menos 75 anos de idade, que aí residia desde 1806.

Assim começa a narrativa de Os Miseráveis, de Victor Hugo, livro dividido em cinco Partes (Fantine; Cosette; Marius; O idílio da Rua Plumet e a epopeia da Rua Saint-Denis; Jean Valjean). Acabo de ler a Primeira Parte, Fantine, na ótima edição da CosacNaify.

Embora as 50 páginas iniciais deem notícia da vida do Bispo desde sua chegada a Digne, em 1806, não é por acaso que a narrativa começa com o ano de 1815. É neste ano que o embrutecido Jean Valjean, ex-presidiário e ladrão, vai se encontrar com o misericordioso Bispo de Digne, Dom Bienvenu. O impacto do encontro marca o início de uma nova vida para Jean Valjean, o protagonista de Os Miseráveis. É em 1815, e na 51ª página, que começa propriamente a história do livro, a história do ex-forçado Jean Valjean depois de ser transformado pela fé no Deus de D. Bienvenu, cujo nome é Misericórdia.


Ó Vós que sois!
O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.


Fantine é uma linda jovem costureira de Paris que nasceu e cresceu sozinha nas ruas da pequena Montreuil-sur-Mer. Depois que é abandonada pelo amante com a filha Cosette, de dois anos, Fantine resolve voltar à cidade natal e procurar emprego. Deixa a filha em Montfermeil aos cuidados do casal Thénardier até que consiga se estabelecer em Montreuil-sur-Mer. Mas suas tolices, a ambição dos Thénardier, as fofocas e a impiedade do povo da cidadezinha levam Fantine à degradação, e ela não mais conseguirá rever Cosette.


O ajuste estava concluído. A mãe passou a noite no albergue, deu o dinheiro e deixou a criança. Tornou a atar o saco de roupas, quase vazio e muito mais leve, e partiu no dia seguinte, contando voltar o mais depressa possível. É tão simples calcular essas partidas, mas que desesperos não provocam!
Uma vizinha dos Thénardier encontrou essa mãe que se afastava e voltou dizendo: 
– Vi uma mulher chorando que fazia dó. 


Quando Fantine chega à Montreuil-sur-Mer, a cidade goza da prosperidade provocada pelo espírito empreendedor e pela bondade de um forasteiro, o desconhecido Sr. Madeleine. Apenas Javert, o inspetor, desconfia do Sr. Madeleine, que na realidade é um disfarce do perigoso Jean Valjean, que escondeu seu nome para iniciar uma nova vida. Javert, ao que parece, vai perseguir Valjean por todo o livro.  Como o protagonista, o rígido Javert também é capaz de se sacrificar por algo que entende ser maior do que ele mesmo. Só que o Deus de Javert chama-se Ordem, e a Misericórdia para ele é uma fraqueza perigosa.

Este homem se compunha de dois sentimentos muito simples e relativamente bons, mas que ele tornava maus, tanto os exagerava: respeito à autoridade e ódio a qualquer rebelião; a seus olhos, o roubo, o assassínio e todos os crimes não passavam de formas de rebelião. Ele envolvia numa espécie de fé cega e profunda tudo o que tem uma função no Estado, desde o Primeiro Ministro até o Guarda Campestre. Cobria de desprezo, de aversão e tristeza tudo que houvesse transposto, por uma vez sequer, o limite legal do crime. Era absoluto e não admitia exceções de espécie alguma. […] Era estoico, sério, austero; um pensador triste, ao mesmo tempo humilde e altivo como o são os fanáticos. Seu olhar era um verdadeiro estilete, frio e penetrante. Toda a sua vida se resumia em duas palavras: vigiar e observar.

Mas não é Javert que desmascara Madeleine. O próprio Jean Valjean se entrega para salvar o pobre Champmathieu, que quase é condenado ao ser confundido com ele. O capítulo  A tempestade de uma consciência mostra em detalhes o conflito interno de Jean Valjean na noite anterior  ao  julgamento de Champmathieu, quando a consciência de Valjean se debate, sem conseguir se decidir, no dilema: ou se entrega, e provavelmente voltará ao trabalho forçado nas galés; ou deixa que o Destino siga seu caminho e condene o desconhecido Champmathieu em seu lugar.


Por mais que fizesse, voltava sempre ao cruciante dilema que estava no fundo de sua consciência; “Continuar em seu paraíso transformando-se em demônio! Voltar ao inferno e transformar-se em anjo!”
[…]
Sua indecisão interior tornava-se visível. Caminhava como uma criancinha a quem se larga a mão.
Em certos momentos, lutando contra o cansaço, esforçava-se por recobrar a própria inteligência. Diligenciava formular, pela última vez e definitivamente, o problema sobre o qual, de algum modo, caíra exausto. Seria mesmo necessário que se denunciasse? Ou deveria esconder o seu segredo? Não conseguia ver nada claro. Os vagos aspectos de todos os arrazoados esboçados em sua imaginação tremiam e se dissipavam, um após o outro, como fumaça. Sentia somente que, fosse qual fosse a decisão, seria necessário e inevitável que deixasse morrer alguma parte de sua pessoa; tanto à direita como à esquerda, abria-se um sepulcro; teria de suportar irremediavelmente uma agonia: a agonia da felicidade ou da virtude.
Assim se debatia na angústia aquela alma infeliz. 
Dezoito séculos antes desse pobre homem, o ser misterioso em quem se congregam todas as virtudes e todos os sofrimentos da humanidade, ele também, enquanto as oliveiras tremiam sob o vento feroz do infinito, por muito tempo afastou das próprias mãos o terrível cálice que lhe aparecia, transbordante de sombras e de trevas, na imensidão cheia de estrelas.


Ao final da Primeira Parte de Os Miseráveis, Jean Valjean foge da cadeia – Javert no seu encalço; Fantine é enterrada sem conseguir rever a filha, apesar dos esforços de Valjean; e o Sr. Madeleine, depois de virar assunto de fofoca e maledicência, é esquecido.


É triste não podermos dissimular que, a estas simples palavras: É um forçado, todos o abandonaram. Em menos de duas horas, todo o bem que havia feito foi esquecido; ele não era nada mais que um forçado.
[…]
Os “salões”, então, encheram-se de diálogos semelhantes. Uma velha senhora, assinante do Drapeau Blanc, fez esta reflexão, cuja profundidade é quase impossível de medir:
– Não estou nada admirada. Isso servirá de lição aos bonapartistas!
Foi assim que o fantasma chamado Sr. Madeleine sumiu de Montreuil-sur-Mer. Três ou quatro pessoas apenas, em toda a cidade, se conservaram fiéis à sua memória. Entre essas, a velha porteira que o servira por tantos anos.


Com Os Miseráveis, Victor Hugo criou um mundo que nos permite compreender o nosso mundo. Vou lendo e consultando o Sumário do livro, como a um mapa, para não me perder neste vasto mundo de personagens, ações, conflitos. Um mapa com as indicações em forma de enigmas. Serve mais para retomar o que já foi visto do que para adivinhar o que vai acontecer.

No Sumário mapa, olho minha próxima parada – Segunda Parte: Cosette. De seguro pouco se pode concluir da leitura dos títulos dos Livros e Capítulos. Imagino que Jean Valjean continuará fugindo de Javert e tentará ajudar Cosette, promessa que provavelmente fez à Fantine em seu leito de morte. Novos personagens vão surgir, e alguns, que apareceram brevemente na Primeira Parte, devem ganhar importância.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A arte de ser leve, de Leila Ferreira


Obrigado, Leila, pela sua palestra e pelo seu livro, que me foi presenteado por colegas de trabalho (gentileza).

Quem sabe um dia não fazemos uma convenção dos caminhoneiros que gostam de andar de bicicleta?

Porque também sou daqueles que vieram de caminhão. E andaram pela vida transformando os sonhos em tarefas pesadas. Cada objetivo que me impunha era como uma carga a ser levada a seu destino. Vendo as coisas desse modo, é claro que os revezes do caminho causavam muito mais sofrimento e desespero. E, o pior: a quase incapacidade de curtir a paisagem, sentir o vento soprando no rosto quando tudo ia bem.

Felizmente, depois de muitas dificuldades, já faz uns oito anos, percebi que a carga já tinha sido entregue, e me permiti o sofrimento de admitir que não tinha chegado ao paraíso que imaginava. Na realidade, a vida que eu tanto quis parecia não ter qualquer sentido. Com o caminhão ao lado, parado e vazio, resolvi que não era o caso de inventar mais um carreto. Eu precisava urgentemente  de um novo olhar sobre a vida.

E foi viajando para dentro de mim (com a ajuda dos livros) que descobri que o mais importante, inclusive para a minha felicidade, não era o que a vida podia me dar, mas o que eu poderia oferecer à vida diariamente. Este blog é um apanhado das minhas descobertas e uma homenagem aos meus guias de viagem: poetas, escritores, jornalistas, psicólogos, filósofos, religiosos e compositores inspirados. Se tem uma frase, dentre as tantas que me encantaram, que  melhor sintetiza este novo olhar sobre a vida, a frase é: A vida é perto.

Agora estou aqui, ainda nesta busca, ainda caminhoneiro. Mas também passeio de bicicleta lentamente: reparo no que está ao meu lado, no mar da vida, infinitamente triste e belo porque transitório, frágil e defeituoso como eu. Como escreveu Manuel Bandeira:

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Um pouco sobre o livro



A arte de ser leve é uma grande reportagem. A jornalista Leila Ferreira foi a campo conhecer pessoas que, apesar das tristezas vividas, conseguem, de um jeito ou de outro, viver melhor. Conversou também com profissionais (psicólogos, filósofos, educadores, historiadores) que lidam com a questão da felicidade.

Não se trata do conceito popular de felicidade – um prazer constante que só existe nos comerciais e nos sorrisos posados. O livro investiga o que chama de felicidade modesta, ou leveza. A felicidade que convive com as tristezas e sofrimentos da vida. A felicidade que não pode ser buscada diretamente, mas pode vir como efeito colateral do empenho em dar à vida um significado pessoal.

Leila Ferreira examina os comportamentos que, hoje, nos têm desviado do caminho de uma vida mais leve. Vivemos com muita pressa, numa busca frenética por sucesso, produtos e atividades que parecem não ter significado. Os outros viraram meios ou obstáculos que bajulamos ou atropelamos de acordo com a ocasião. Nessa correria, esquecemos o mandamento mais básico que vem sendo ensinado desde o início da história humana pelos sábios - a regra de ouro: amar o próximo como a si mesmo; ou tratar o outro como você gostaria de ser tratado. A arte de ser leve é dividido em capítulos que refletem sobre as atitudes que podem nos fazer retomar o velho, e sempre novo, caminho em direção ao próximo: Gentileza, Bom humor, Descomplicação, Desaceleração, e Convivência.

Um dos méritos do livro é entremear as considerações teóricas sobre a busca do bem viver com a experiência de vida de pessoas bem diferentes que descobriram cada uma seu caminho para a leveza:



Mais leve que meu tio e dona Dalcy, só mesmo Sá Luíza, benzedeira do Vale do Jequitinhonha, que estava com 106 anos quando a entrevistei. Pobre, saúde frágil, encolhida pelo tempo e por tudo que enfrentou ao longo de mais de um século, Sá Luíza, quando questionada do que gostava na vida, respondeu: "Da vida eu rapo é tudo!". Depois de me contar como foi a única história de amor que viveu, e que a fez sofrer muito, suspirou e arrematou: "Ô, vida rica, minha fia!"


Em entrevista à revista Época, o historiador americano Darrin McMahon, autor de Felicidade: uma história, disse que tentar ser feliz é como deitar na cama e dizer: preciso dormir porque tenho um compromisso amanhã. “Nunca funciona. Talvez a melhor forma de ser feliz seja colocar o foco em outra coisa. Fazer algo de que você goste muito, dedicar-se à família, a um hobby, ao grupo à sua volta. Fazendo isso, a felicidade talvez venha indiretamente.”


Leia abaixo outros trechos do livro:

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Felicidade, de Marcelo Jeneci e Chico César


Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis

Não tem jeito. Há horas nubladas em que você não vê a luz.  É o preço por uma vida vivida com atenção e responsabilidade. O maior problema não é a chuva, inevitável, mas se afogar nela. O desânimo é parte da vida, mas não a história toda; também passa (vai e volta) como a felicidade.

Quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar

Essa é a singela mensagem da música Felicidade. Não fugir do desânimo e da tristeza, vivê-los. Mas também não se agarrar a eles, deixar passar. A melodia e a letra são contagiantes. Então, quando a vida pesar mais do que você acha que pode aguentar, ouça Felicidade, cantada por Marcelo Jeneci e Laura Lavieri, até sair dançando e cantando na chuva e no sol da sua imaginação.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar, em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também, e dançar, dançar na chuva quando a chuva vem