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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Medo

Que seria do homem sem o medo?

Talvez o próprio bem, virtude mais admirada, não existisse sem a colaboração do medo. Não estou dizendo que o bem não existe, que é um disfarce do medo, longe disso. Mas dificilmente alguém chegaria a ser bom se o medo não abrisse um vazio entre o desejo e a ação, entre a volúpia e a busca do prazer. É nesse vazio criado pelo medo que pode entrar o eu e o outro. É nesse vazio que surge o humano e a coragem de ser humano.

Egoísmo

Ao ensinar compaixão ao rei Pasenadi de Kosala, o Buda diz: “Quem ama o eu, não deve ferir o eu do outro”. Para muitos, o Buda buscava apenas falar à mente do rei, que se confessara por demais apegado. Mas é possível também outra interpretação. Talvez o Buda tenha reconhecido o egoísmo como raiz fundamental do amor-próprio e da compaixão. Cortada a raiz do egoísmo, a compaixão ou morre ou se deforma.

Quem ama a si, ao se colocar no lugar do outro, sente compaixão.

Mas quem despreza a si mesmo, ao se posicionar no lugar do outro, só consegue sentir indiferença, desrespeito, ódio.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

3x4 na rodoviária do Plano Piloto

A mãe batia palmas por cima da cabeça. 4 ou 5 curiosos completavam o público do breve espetáculo. Em pé no banquinho que fazia as vezes de palco compulsório, a menininha, de vestido novo e cachinhos pretos cuidadosamente arrumados, pendia a cabeça e olhava fixamente para baixo.  Era a única maneira de não ver a mãe batendo palmas, atraindo mais gente para vê-la tirar o retrato. O fotógrafo sorria e aguardava que a menina erguesse a cabeça.

Segui meu caminho sem ver o desfecho da cena (drama para a menina, comédia para o público).

Seria bom que a mãe desistisse e pedisse ao fotógrafo que batesse a foto da menina assim mesmo, olhando para baixo. O 3x4 não ia servir para o documento, mas seria um belo registro da menina que, não podendo impedir o olhar dos outros, recusou-se a olhar os outros que a olhavam.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Brasilia: moradores e passageiros

As pessoas daqui sentem pena de mim por ter saído de Minas, "uma terra tão boa", para vir morar em Brasília.
Minas é uma terra boa, mas o Distrito Federal também é.
Muitos moradores de Brasília não gostam daqui porque vieram por necessidade, atrás de emprego. Eu, ao contrário, quis vir pra cá e estou gostando.
Mas mesmo quem está aqui por necessidade deveria aprender a máxima de Sêneca: querer o mesmo que a necessidade o força a fazer.